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Solidão nas metrópoles: por que isolamento nas grandes cidades é risco sério para a saúde
Desconexão social aumenta o risco de ansiedade, depressão e até leva à piora na qualidade do sono
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14/09/2026 10h00 Atualizado há 15 horas
Uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão, apontam dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). As informações divulgadas pela entidade recentemente também dão pistas sobre como a sensação de abandono e desconexão, causadas pela falta de convívio social, causam um impacto grande na saúde global. São mais de 870 mil mortes prematuras a cada ano que acontecem com contribuição do isolamento. Um número alto. A título de comparação, a tuberculose (uma das infecções mais letais no mundo) mata cerca de 1,2 milhão de pessoas anualmente.
Em um discurso sobre o tema, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explica as razões pelas quais a solidão tornou-se um problema sério nos tempos atuais.
“A rápida urbanização, mudanças demográficas, transformações digitais e o crescimento da desigualdade estão mudando a maneira com que nos relacionamos. Deixando pessoas sentindo-se desconectadas, não vistas e não ouvidas — disse o líder em saúde, que ressaltou que essa desconexão social é responsável por aumento de quadros como depressão, ansiedade e uma série de doenças crônicas.
Não à toa, Tedros Adhanom elencou a urbanização como um fator importante para essa medida tão perigosa. Especialistas em saúde mental e saúde pública têm alertado sobre o risco do avanço da solidão justamente nas grandes metrópoles, onde a organização da cidade — e os riscos relacionados à segurança pública — tornam a socialização difícil e custosa.
Uma análise recente, publicada no periódico Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, feita por pesquisadores norte-americanos, mostrou que as pessoas que mais relatam solidão são os “adultos mais jovens, mulheres, indivíduos com menor renda ou escolaridade, solteiros e residentes em áreas urbanas”.
A análise mostra que a solidão é maior em cidades grandes, com 41,4% das pessoas enfrentando quadros do tipo. É mais do que o visto nas áreas rurais (36% dos indivíduos com relatos semelhantes). O Brasil, avaliado na pesquisa, é um dos países líderes no isolamento, chegando a 47,5% das pessoas sentindo-se sós. O país fica atrás apenas das Filipinas (48,9%).
— Hoje vivemos em redes familiares menores e que são territorialmente mais dispersas. A expectativa de vida também aumentou, então vivemos mais com redes de apoio menores — explica Gabriela Vasconcelos economista, urbanista social e coordenadora de projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro, do Insper. — Nesses locais (as grandes cidades), há condições como jornadas extensas de trabalho, longo deslocamento, precariedade econômica, violência, espaços urbanos pouco acolhedores e outros fatores que diminuem o tempo e as oportunidades de convivência.
O impacto mental desses fatores é tremendo. Ainda de acordo com a OMS, a solidão dobra a probabilidade de um diagnóstico de depressão. Até mesmo casos de automutilação podem estar conectados a quadros solitários, além de crises de ansiedade. Pesquisadores do Instituto do Envelhecimento, Universidade de Wisconsin–Madison, apontam que pessoas solitárias são mais sensíveis a rejeições sociais. Eles interpretam, diz a análise, mais negativamente expressões faciais. E tornam-se mais rápidas para identificar reações negativas, como feições de medo, tristeza e raiva. Além disso, os mesmos pesquisadores, que revisaram outros estudos sobre o tema, afirmaram que esse público solitário tem pior qualidade de sono.
— O ser humano é social. Crescemos juntos dentro de um contexto de família, com interações, esse fato é essencial para a nossa espécie. Nós precisamos desse contato. A falta dele torna-se um estresse, será sempre um desconforto não tê-lo — afirma o psicólogo e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor), Ronald Fischer. — Claro que isso tem medidas diferentes para as pessoas. Há quem precise de muito contato o tempo todo, outros ficam felizes em passar um dia inteiro sozinho e no outro tomar um cafezinho com um amigo.
De todo modo, explica Fischer, somos uma espécie que chega a ser descrita como “hiper social”. O que torna o contato entre diferentes indivíduos como fundamental. E isso é reforçado até mesmo pelo desenvolvimento humano como espécie, no qual foi necessário unir-se em grupos para sobreviver de animais, inimigos e doenças.
— Dependemos de outras pessoas. Dá para se adaptar (à solidão) em certa medida, mas sempre será um estresse. Isso é um dado da psicologia humana — diz.
Faixas etárias
A solidão, apontam os especialistas, é mais dura em certas fases da vida. Sobretudo na adolescência e nos primeiros anos da vida adulta. Isso porque é o momento de formação da identidade, afirma Fischer. Acima dos 60 anos, esse estado também é crítico. Por tratar-se de um momento em que é mais comum deparar-se com o luto pela perda de amigos e familiares além de ser uma fase em que os pais não convivem mais diariamente com os filhos, que já saíram de casa.
Mães com filhos recém-nascidos também aparecem entre os grupos que podem sentir a solidão com mais intensidade.
A psicóloga clínica Ilana Pinsky que lançará o livro “Longevidade hoje” (Fósforo Editora), com a também psicóloga Sharon Sanz Simon, diz que um fator que a preocupa em atendimentos psicológicos é quando o paciente, apesar de sentir os efeitos da solidão, acha que não vale mais a pena ter relações sociais.
— Não dá para simplesmente desistir dos relacionamentos. Lembro que é uma parte importante da vida e temos que continuar com eles até o final — afirma a psicóloga. — A relação entre pessoas exige empatia, processamento de linguagem, leitura de expressões faciais, tolerância entre tipos diferentes de identidade. É extremamente desafiador. Mas não é possível desistir dessa parte da vida.
Iniciativas
Ilana, porém, reforça a ideia de que cada um tem sua medida e que algumas pessoas tendem a passar bem algum tempo sozinhas, por decisão própria. Não dá, diz ela , para estipular uma média única do quanto deveríamos conviver com outras pessoas. O relógio interno importa (e muito).
— É muito importante que a medida da solidão não se torne outro aspecto da vida em que ficamos fazendo mensurações. Como metas de proteína a bater. Podemos precisar de um tempo sozinhos, isso é normal. O problema é quando isso se torna crônico. E lembremos sempre: relações casuais também contam. Conversar com o padeiro, o porteiro, também fazem parte das nossas interações — avalia.
Em termos mais globais, ainda é difícil determinar quais são as intervenções coletivas ou sociais que obrigatoriamente vão reduzir a solidão nas áreas em que forem aplicadas. Embora Gabriela Vasconcelos, do Insper, lembre que é necessária uma governança compartilhada: que inclua desde o Ministério da Saúde, a sociedade civil, até prefeituras focadas em aplacar os efeitos da solidão. E ressalta que essa não é apenas uma tarefa individual, pois reflete o atual ordenamento das cidades.
Enquanto ainda não se desenha esse grande pacto para lidar com o isolamento nas grandes metrópoles, há iniciativas de baixo custo que podem trazer benefício para quem as aplica.
— Comprometer-se a ligar para um amigo uma vez por semana, ou a cada dois dias, ou então manter um grupo de exercícios com amigos num parque ou uma praça também é muito positivo. Porque você já combina junto de fazer exercícios. O que dá mais força ao corpo e mais energia para se relacionar depois — orienta Ronald Fischer.
Fonte:https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/09/14/solidao-nas-metropoles-por-que-isolamento-nas-grandes-cidades-e-risco-serio-para-a-saude.ghtml
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