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Desafios das relações não monogâmicas: quem tem prioridade no amor?
Pessoas que se relacionam com mais gente tentam organizar a distribuição de atenção e sentimento: o que nem sempre é fácil e pode causar frustração
Por Glau Gasparetto, colaboração para Marie Claire — São Paulo
29/04/2023 06h01 Atualizado 29/04/2023 06h01
Essa espécie de hierarquia sentimental é consenso entre os que estão nessa trajetória há anos, assim como afeta quem tentou e não se adaptou ao estilo de vida fora da monogamia. A influenciadora Kelly Basbasque, 28 anos, mais conhecida na internet como Lindsay Woods, é da turma que não se deu bem com a experiência. “Não estar em primeiro plano foi o que me incomodou. Não é sobre ciúme, é sobre não suprir as minhas necessidades”, argumenta.
Depois de dois anos monogâmicos, ela e o ex-namorado testaram novas possibilidades. A experiência, que durou poucos meses, gerou estranhamento e desgaste emocional tão grandes que liquidou a parceria amorosa.
“Parece que perdemos o afeto de casal, e eu senti que preciso ser a primeira pessoa no relacionamento. Não consegui mais ver um futuro saudável naquela relação”, avalia Lindsay, hoje namorando um outro (e exclusivo) parceiro. “Talvez o relacionamento aberto seja mais fácil para um cara do que para uma mulher. Homens – héteros, principalmente – gostam de estar até com duas ou três pessoas. A mulher não está tão acostumada a dividir parceiros”, diz Lindsay.
Não é raro que as relações abertas funcionem melhor para homens do que para mulheres, o que ainda é resquício de uma cultura machista. “Historicamente, é aceitável que homens tenham amantes, enquanto a mulher, na mesma posição, é desqualificada e tachada de vagabunda”, diz Lelah Monteiro, psicanalista, terapeuta de casais e sexóloga.
A boa notícia é a perspectiva de essa questão ser mais equilibrada, em um futuro não muito distante. “Existe uma tendência, principalmente entre as novas gerações, econômica e psiquicamente mais presentes, que traz o debate de que tanto eles quanto elas podem fazer o que quiserem”, afirma a especialista. “Acredito nesse equilíbrio salutar.”
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E o equilíbrio em todas as frentes da relação aberta vem com diálogo –justamente a estratégia adotada por Giovanna Guarnieri, 30 anos, astróloga, e Julia Carvalho, 29 anos, analista de produtos, que decidiram conversar sobre tudo para entender o que funcionava –ou não– para cada uma.
“Enxergamos a relação como algo fluido, que se transforma e pode se reinventar”, diz Julia. Nada é proibido, mas tudo precisa ser conversado entre as duas, que já se identificavam como não monogâmicas antes de ficarem juntas – o que aconteceu há dois anos. Há, porém, pontos sensíveis, como o envolvimento com pessoas próximas e, justamente, a hierarquia relacional. “Hoje, sentimos a necessidade dessa hierarquia, principalmente em momentos de vulnerabilidade. Dividimos uma vida e, além de uma relação, uma casa, uma cachorra, obrigações. Essa segurança emocional ainda é algo que estamos trabalhando para desconstruir”, diz Giovanna.
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Julia argumenta que romper com esse padrão representa uma escolha política pela não monogamia. “Fomos criadas numa estrutura monogâmica, que fortalece o patriarcado e a ideia de propriedade e controle –principalmente sobre as mulheres.”
Além disso, ela discorda da ideia de que, em um casamento, a “instituição casal” deve ser prioritária e superior a qualquer outra relação, inclusive de amizade ou familiar. “Acho essa quebra importante até para o desenvolvimento da individualidade. Atualmente, estamos numa metamorfose quanto à hierarquia relacional: ainda a praticamos, por nos trazer conforto e segurança emocional, mas entendemos aonde queremos chegar e por quê”, detalha a analista de produtos.
Giovanna revela que houve, sim, momentos em que se sentiu vulnerável e a parceira não estava disponível. Em situações como essa, admite que inseguranças podem vir à tona. “A forma de lidar com isso é tentar refletir sobre qual é o verdadeiro gatilho para tais inseguranças, ser honesta e expressar meus sentimentos. E, é claro, fazer terapia”, ri.
Influência do amor romântico
Para Stélios Sdoukos, psicólogo e terapeuta de casais na The School of Life, independentemente da configuração ou da quantidade de envolvidos, qualquer vínculo “só sobrevive quando um parceiro está sintonizado e respondendo às necessidades do outro”. Tal demanda existe porque a maior parte das pessoas foi educada a viver em um modelo de relacionamento que pressupõe determinados valores: exclusividade, possessividade, controle, satisfação mútua e inegociável, atribuição de papéis de gênero.
“É natural que os casais queiram processar isso e entender se ainda são prioridade para seus parceiros. Estamos falando de segurança, apego, e isso transcende qualquer configuração amorosa”, aponta Stélios.
Na cultura atual, monogamia ainda é tradição. “Vivemos sob o mito do amor romântico, que é péssimo e começou a valer a partir de 1940. E isso não tem nada a ver com mandar flores”, pontua Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de Novas Formas de Amar (editora Planeta). Como ela lembra, o amor romântico prega que uma pessoa só deve ter olhos para outra, pois ambas se completam e vão se transformar em uma só. A premissa abraça a ideia de que nada vai faltar se houver amor.
“Quando alguém parte para uma relação não monogâmica, mesmo que acredite que isso seja o ideal, é evidente que os resquícios e os muitos anos de condicionamento cultural vão acabar afetando”, sentencia Regina.
Com mais de quatro décadas de atendimentos e pesquisas no campo amoroso, a especialista diz que é questão de tempo para as mudanças comportamentais se tornarem populares –e, na prática, menos complexas–, já que o momento é de transição entre antigos e novos valores. Hoje, o número de pessoas que propõem a não monogamia a parceiros é crescente, apesar de ainda minoritário. A perspectiva é de transformações pela frente. “Daqui a algumas décadas, menos pessoas vão querer fechar uma relação a dois e mais gente vai optar por relações múltiplas.”
Individualidade, sim. Família, também
Relacionamento aberto é uma das formas possíveis de explorar a não monogamia, conceito que engloba diversas possibilidades, como swing, poliamor e visões ainda mais amplas sobre a liberdade afetiva e sexual. “É uma das maneiras que o casal encontra para lidar com o desejo por pessoas diferentes do parceiro principal, um espinhoso tema que ronda as relações desde sempre”, comenta o psicólogo Stélios.
Com a intenção de evitar experiências clandestinas, os pares trazem para o centro da relação o desafio de lidar com o interesse que ambos têm e não conseguem (e/ou querem) evitar, sempre de maneira autêntica, franca e explícita.
Casada há quase uma década, Juliana Guarany, 44 anos, especialista em mídias sociais, decidiu com o marido – na época ainda namorado – abrir o relacionamento há 12 anos. Ela e o engenheiro Marcelo Bianco, 44 anos, residem na Alemanha e são pais de uma garotinha de 8 anos. “Estamos juntos desde 2007. Logo de cara, Marcelo falou que queria tentar. Era algo que eu não conhecia nem imaginava que pudesse dar certo, mas topei”, diz ela.
No primeiro ano, as experiências com outras pessoas renderam tantos mal-entendidos e dores de cabeça que o casal optou por retomar a exclusividade durante um tempo. Lá por 2011, tiveram que morar em países diferentes, e foi aí que Juliana entendeu a importância do que Marcelo havia proposto no início do namoro.
“Compreendi que precisávamos ter a individualidade de cada um respeitada.” A decisão não significou afrouxamento dos laços entre eles, pelo contrário. “Temos uma relação de parceria de vida, que implica muitas questões e abrange nossa família. Então, qualquer coisa que entrar no meio disso vai ficar em segundo plano.”
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A trancista Dominiqui Silvia Maria, 28, e o garçom Roosevelt Duallamo, 23, estão juntos há sete anos. No começo, a relação era fechada, mas três ou quatro meses depois optaram por abri-la. “Tanto eu quanto ele somos bissexuais e, diversas vezes, acontecia de sentirmos desejo por outras pessoas. Como a nossa relação se baseia em sinceridade, não escondemos esses desejos. Resolvemos, então, abrir e experimentar o ménage também”, diz Dominiqui.
Apesar de sempre respeitar a liberdade do par, ela conta que existe a priorização entre os dois. “Como costumo dizer, ele não é só meu cônjuge, é meu melhor amigo, sócio e cúmplice. Tentamos nos separar por um período e falhamos. Acabamos indo um atrás do outro por necessidades que só a gente entendia.”
Tempo em família
É o que sente a professora paulista Paula Oliveira, 39 anos, casada há 13 com o empresário Fábio Augusto, com quem tem duas filhas. Apesar de adotarem o relacionamento aberto, existe a priorização e o compromisso de que nada nem ninguém prejudique a família.
“Abrimos a relação depois de casados. Quando engravidei, fechamos. Só fomos abrir de novo quando a nossa segunda filha já tinha 6 meses. É necessária essa hierarquia afetiva, porque tanto eu quanto elas precisamos da presença, do carinho e do afeto dele.”
Quando o par ou as crianças necessitam de atenção, as demais questões se tornam secundárias. “Se eu tiver algo marcado e surgir algum compromisso ou questão com a família, vou desmarcar. É uma linha mestra do nosso relacionamento”, confirma Fábio.
Na casa de Juliana e Marcelo, a lógica é parecida. “Sempre deixei claro todas as vezes que eu precisei dela, e ela sempre me deu suporte nestes momentos”, comenta o marido.
Relacionamento não-monogâmico fechado
Um olhar diferente tem Larissa Vieira, 27 anos, engenheira de produção. Ela vive uma relação não monogâmica com Júlia Marotto, 30 anos, arquiteta. Mas a relação não é aberta – o que faz com que todos os envolvidos sejam prioridade, de acordo com o momento e a necessidade.
“Conheci a Júlia em um aplicativo de relacionamento. Ela tem um outro relacionamento de quase 15 anos e, na pandemia, eles resolveram abrir. Começamos a nos relacionar em fevereiro de 2022. Sempre fui não monogâmica, mas acho que nos relacionamentos abertos acaba existindo uma relação principal. E essa nunca foi a minha ideia, mas, sim, estabelecer afetos e deixar que eles fluam”, explica, deixando claro que eles não formam um trisal.
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Embora a relação de Júlia com o companheiro seja mais antiga, ela não prevalece sobre a vivência dela com Larissa. “Nossa relação é de igual para igual, ninguém é prioridade. Isso foi um acordo que fizemos. É desafiador, claro, porque as referências que temos são de monogamia. Mas não era isso que a gente queria viver nem o que fazia sentido para nós.”
Ela compara o que vivem com outros tipos de relacionamento. “Você tem mais de um amigo e, se um deles precisa de você, vai atender quem tem mais necessidade. A ideia do nosso relacionamento é basicamente essa: a prioridade do momento está no que a outra pessoa precisa.”
Acordos são necessários
Toda relação, monogâmica ou não, é regida por códigos. Às vezes, são passados de um para o outro e absorvidos até de forma inconsciente. “São os pactos sobre o que se espera da relação”, resume Regina Navarro Lins. Esses compromissos devem ser definidos previamente, da mesma forma que repensados durante a trajetória do casal.
“Os acordos vão colocar os parceiros em xeque diversas vezes e, para saber como agir, devem se lembrar dos motivos para viverem aquilo. Resgatar os valores que os motivaram a estar em uma relação aberta”, garante Stélios.
A psicanalista Regina Navarro Lins frisa ser muito cedo para apontar o melhor caminho para que um relacionamento aberto dê certo. As respostas para as inúmeras dúvidas que o estilo de vida desperta só virão quando esse tipo de conexão for mais comum entre os casais. “Mas é importante se livrar do moralismo e dos preconceitos”, encerra.
E se eu abrir?
Dicas para quem cogita explorar novas formas de se relacionar:
•Fale de forma clara e sobre abrir. É uma conversa que exige coragem e clareza dos próprios desejos;
• não force ninguém a adotar esse estilo de vida. Tomar essa decisão pode ser um processo de tempo;
• abrir a relação é uma jornada de autodescobrimento do casal e também dos parceiros, individualmente;
• acordos são necessários para nortear os passos que os dois pretendem dar, mas não são leis imutáveis. Podem e devem ser reavaliados e suspensos quando não fizerem mais sentido;
• é ilusório achar que manter segredo sobre as experiências vividas vai proteger a vida conjugal. Cada casal define seus limites quanto aos detalhes, mas a transparência é recomendada;
• relacionamento aberto não é proteção contra a traição. A infidelidade pode acontecer em qualquer circunstância.
Fonte:https://revistamarieclaire.globo.com/comportamento/noticia/2023/04/desafios-das-relacoes-nao-monogamicas-quem-tem-prioridade-no-amor.ghtml
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