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Sober dating: a tendência dos dates sem álcool e com mais conexão
Nossa colunista traz dados que mostram como os jovens estão preferindo marcar encontros de relacionamentos sem álcool – e o que isso nos ensina
Por
Carol Tilkian (@caroltilkian_amorespossiveis)
11/10/2024 13h43 Atualizado há um ano
Se você tivesse que escolher um lugar para marcar o primeiro date, qual seria? Até pouco tempo atrás, a resposta óbvia seria: em um bar. Isso porque o bar aparentemente traz uma combinação perfeita para esse momento em que você não sabe se vai ser "credo?!" ou "que delícia!": um ambiente informal, sem tempo mínimo esperado de permanência (como nos jantarzinhos), o que te ajuda a ter um plano de fuga fácil e sem constrangimento caso não role química: basta uma desculpinha e a conta após o primeiro drink.
E, por falar em drink… é exatamente por ele ser a estrela do ambiente que o bar se tornou o "hot spot" por décadas para todos aqueles que queriam se conhecer melhor. Isso porque o álcool sempre foi considerado uma espécie de lubrificante social e a principal ferramenta para aproximar as pessoas em um encontro.
Mesmo eu, que amo marcar dates diferentes — já marquei date que começou na hot yoga, em uma corrida na rua, em um day spa em hotel chique (me julguem, rs…) —, sempre faço um combo que termina com um almoço ou jantar com drinks. Para mim, funciona o combo que une um pouco de endorfina com um pouco de entorpecimento. Confesso, inclusive, que já julguei caras que não bebiam no date (quem também?). Me questionava se eles teriam problemas de adicção que não queriam me contar ou se tinham casos na família (a roteirista que vive em mim se esbalda com novos personagens que surgem na minha vida… é mais forte do que eu), enquanto já antecipava que aquele seria um encontro menos divertido que os encontros etílicos. Afinal de contas, todo mundo fica mais leve, solto e com histórias melhores depois de uma ou duas tacinhas, pensava eu. Mas parece que o jogo virou… e a aquariana aqui, que sempre se achou "prafrentex", está assinando seu atestado de cringe: sober dating is the new cool.
"Sober dating" são dates sóbrios, sem a presença de álcool e, segundo uma pesquisa realizada pelo Tinder no Brasil com usuários da Geração Z, entre 18 e 25 anos, quase 40% dos jovens afirmam preferir encontros sem a presença de álcool, enquanto 57% estão abertos a encontros onde o álcool está presente, mas optam por não consumir. Li esses dados e já pensei que, se eu quiser achar um Nicolas Prattes para chamar de meu, vou ter que trocar o álcool dos meus combos de dates por um suco verde… (Pelo menos eu já estava marcando no hot yoga… vou esfregar os dados da pesquisa na cara das amigas que diziam que isso não era criatividade, era sabotagem.)
Brincadeiras à parte, acho válido refletirmos por que o álcool tem perdido o protagonismo nos encontros amorosos e o que isso diz sobre nós. Nessa mesma pesquisa do Tinder, 84% dos brasileiros da Geração Z afirmaram que não consomem álcool regularmente e, para 4 em cada 10 jovens, há a clara percepção de que é mais saudável não beber.
Percebo que o "mais saudável não beber" não diz respeito só à saúde física, mas também (e talvez principalmente) à saúde mental. Os níveis de ansiedade, depressão e transtornos de imagem nunca estiveram tão altos. E não há stress test pior para nossa sensação de insuficiência do que um primeiro date com alguém que a gente acha interessante e quer muito impressionar. O que minha geração fazia era seguir as palavras da sofrência do Raça Negra: "Aí eu me afogo num copo de cerveja, que nela esteja minha solução"... Mas, obviamente, você, eu e todo mundo que já bebeu para se soltar eventualmente amargamos ressacas morais que duraram mais do que os encantamentos causados pela malemolência etílica.
Lembrando do ditado que diz que "a diferença entre o remédio e o veneno é a dose", uma vez que estamos todos à flor da pele, sentimos que há cada vez menos margem de erro. Basta um gole a mais ou uma taça em um dia errado para aflorar inseguranças ao invés de sex appeal. Evitar o consumo de álcool, assim, tem sido para muitos uma forma de se proteger emocionalmente e se dar a possibilidade de conhecer uma nova pessoa sem correr o risco de "perder o controle".
Coloquei "perder o controle" entre aspas porque o encontro e o encantamento por um novo alguém já pressupõem perder o controle, e acho de uma coragem incrível estarmos dispostos a encarar esses encontros sóbrios. Esse é um movimento que vem ao encontro de uma geração cansada de filtros, papos rasos e performances. É uma busca por presença, onde o encontro passa a ser uma experiência de conexão. Não se trata de evitar o nervosismo, mas de tratá-lo com naturalidade e de aceitar que estar vulnerável e não ser perfeito, sexy, hiperinteressante, falante ou propositivo faz parte do processo de se apresentar para alguém. Numa sociedade cada vez mais adoecida, buscar uma vida e relações saudáveis se faz cada vez mais necessário.
O que estamos entendendo — para nosso próprio bem — é que estar vulnerável conscientemente, escolhendo quais histórias constrangedoras do passado você vai contar para compartilhar humanidade, nos faz mais bem do que estar vulnerável como efeito etílico, o que faz com que a gente fale o que nem sempre acha que deveria e acaba por criar mais uma história constrangedora — agora no presente — ao invés de criar a tal conexão.
A ausência do álcool como elemento central do encontro a dois traz um dilema para os solteiros paquerativos: onde encontrar e marcar os dates? Perdemos a muleta do bar, o que, a princípio, pode parecer desconfortável, porque esse era um ambiente neutro, uma aposta segura. Por outro lado, o sober dating abre espaço para programas mais significativos, que traduzem os interesses das duas pessoas e geram contextos para conversas mais específicas e profundas, bem como para o desenvolvimento de atividades compartilhadas.
Segundo a neurociência, fazer atividades junto com alguém cria maior probabilidade de aprofundamento de vínculos do que uma conversa profunda. Isso porque coloca as duas pessoas em sincronia de presença, respiração e ação (tá vendo por que eu marco os encontros com corrida, hot yoga etc.?)
Hoje há quem brinque que os grupos de corrida são o novo Tinder, mas eu acredito que eles são parceiros e não concorrentes. Entendo que os aplicativos são plataformas com um potencial altíssimo para conectar pessoas com os mesmos interesses em atividades comuns, proporcionando não só um match de perfil, mas também de programação. A pesquisa do Tinder inclusive aponta que 37% dos entrevistados acreditam que a presença de uma comunidade ativa de pessoas que não consomem álcool em aplicativos de namoro melhoraria sua experiência, especialmente entre aqueles que não bebem por razões de saúde ou gosto pessoal. Lendo esse dado, penso que acordaria com muito mais disposição para correr às 6 da manhã no Ibirapuera sabendo que meu Nicolas Prattes cover, com o qual já dei match, também estaria por lá, do que se tivesse que acordar para correr sozinha ou no risco de ter que caçar alguém ao vivo (sem saber se estava caindo em um grupo só de gente casada ou desinteressante, por exemplo).
Fonte:https://glamour.globo.com/colunas/carol-tilkian/coluna/2024/10/sober-dating-a-tendencia-dos-dates-sem-alcool-e-com-mais-conexao.ghtml
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